Que nem limão

Que nem limão

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O que precisa ter em uma festa de casamento

Eu vou casar. E essa é uma frase que tem rendido uns olhares bem interessantes. Claro que a interpretação é minha, mas o que eu vejo é que as pessoas ficam alegres e surpresas quando o casamento é mencionado por alguma razão. Quando eu decidi casar, eu descobri que todas as pessoas, exceto aquele motorista de Uber, ficam felizes em ouvir falar sobre casamento.

E aí eventualmente elas perguntam: vai ter festa? E eu respondo que sim. E aí as respostas variam desde "que loucura gastar tanto dinheiro em festa de casamento" a "a festa de casamento é a melhor parte de casar". É uma régua bem maluca. 

Eu descobri isso desde as primeiras reuniões que fiz com os tais fornecedores. E eu descobri que o que os fornecedores mais fornecem é angústia. E eles não fazem por mal, mas porque a é a função deles é garantir que nada falte. Mas faltará sempre, né?

Por isso eu saí arrasada da primeira reunião: eu não sabia responder a nenhuma das perguntas. Eu sabia qual lugar gostaríamos de fazer a festa, mas eu não sabia sobre a decoração, som e iluminação, buffet, gerador, aluguel de cadeiras, DJ ou banda, e mais uma quantidade imensa de coisas que eram questionadas enquanto me chamavam de noiva. Aliás, preciso dizer sobre a birra que eu tenho com essa palavra. Me faz pensar aquelas pessoas que ficam noivas durante doze anos. Sigo chamando o Wyllian de namorado. E fui corrigida algumas vezes nas reuniões quando eu dizia namorado. 

Ele aliás foi quem garantiu minha sanidade. Eu fiquei tão angustiada com as coisas que eu não sabia sobre nosso casamento que uma intervenção dele foi superimportante: "Angela, do jeito que você tá ansiosa, ou a gente adianta esse casamento para daqui a dois meses ou a gente vai ter que entrar com medicação".

Não adiantamos o casamento e não entramos com medicação. Apenas foi necessário parar de olhar pra essa régua do que precisa ter em uma festa de casamento. Uma coisa interessante que eu descobri nesse meio é que quando alguém te pergunta alguma coisa, é bom que haja a resposta certa. A pergunta, portanto, pressupõe que você responda o que se espera. Exemplos:

Alguma coisa diferente para convidar os padrinhos, algo que não seja: a gente queria ter vocês como padrinhos.

Uma sessão de fotografias antes do casamento.

Daminhas e daminhos. 

Dia da noiva.

Vejam, eu não estou julgando essas coisas erradas. Eu estou dizendo que essas coisas não são importantes para mim. E eu sempre ouço que a festa do casamento tem que ter a cara dos noivos. Se tiver a nossa cara, vai ter mesa redonda tratando sobre feminismo e psicanálise e memes do futementales por toda parte. Ou seja, dizer que a festa tem que ter a nossa cara é uma baita falácia.

Sabem o que foi o diferencial na escolha da assessoria do casamento? Escolhi a pessoa que me disse que sempre que eu precisasse eu poderia falar com ela. Quando EU precisasse.  

Faltam quatro meses para o casamento. O tempo está passando rápido e eu quero que essa festa seja linda. O que eu não aceito é que ela seja resultado de um monte de imperativos sobre o que precisa ter em uma festa de casamento.

Porque eu já sei o que precisa ter: o desejo de fazer uma festa e a possibilidade de realizar esse desejo conforme o bolso permite. 

No mais, é cagação de regra.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Minha experiência com o coletor menstrual ou olha o que é o estudo né, gente?

Sempre fico impressionada com as facilidades da vida. Não compartilho de nenhuma nostalgia romântica em relação a épocas anteriores. Por isso que eu fico feliz toda vez que inventam alguma coisa que melhora meu dia a dia. E o coletor menstrual é uma dessas coisas.

Faz uns dois anos que eu ouvi falar sobre ele. Li, entrei em sites que vendiam, vi vídeos no youtube. Mas demorei a aderir à ideia. Porque eu não achava que ia conseguir usar. Nunca me adaptei com absorvente interno porque sempre tive medo que se perdesse no buraco negro que eu imaginava possuir. 

Bom, eu menstruei pela primeira vez com quase 14 anos. Tarde, se comparada às minhas amigas. E eu tinha tanta, mas tanta vergonha que não tinha coragem de falar a palavra menstruação. Escrevi uma carta para minha mãe contando, de vergonha de dizer. Falando em carta, uma amiga minha  tem uma minha guardada em que eu contava que tinha menstruado, mas sem usar a palavra e ela disse que foi um desafio decifrar minha mensagem. Aliás, eu conheço muita gente que não fala MENSTRUAÇÃO. Dizem que acham feio. Eu sempre achei feio dizer "chico", "naqueles dias" ou qualquer outro apelido. Não sei dizer quando, mas chegou um momento que eu comecei a falar sem nenhum constrangimento. 

Mas vamos ao coletor. Comprei o meu ano passado, acho na metade do ano. Quando vi aquele copinho de silicone eu pensei: eu não vou ter coragem de colocar. E se não conseguir tirar? E se eu tiver que ir num pronto socorro? De novo aquela ideia de buraco negro. O fato é que tentei. Colocar o coletor depende de você saber como dobrá-lo. E não tem só um jeito. Eu dobrei da forma como era indicado no manual. Resultado: vazou, porque eu não consegui colocar até ele se abrir e encaixar no colo do útero. Fiquei frustrada. Me senti realmente mal, com a sensação de que eu não conhecia meu corpo, que eu não era capaz de usar um artefato que parecia ótimo Eu realmente queria usar. Aí você pode perguntar: por que você queria tanto usar?

São alguns motivos: meu fluxo menstrual sempre foi intenso. Por isso eu sempre vazei. Mesmo tomando cuidado, acontecia com uma frequência maior do que eu era capaz de controlar. E eu li que o coletor era bom porque você passava a ter uma ideia melhor de quanto menstrua. O absorvente faz a gente pensar que está tendo uma hemorragia, pois, na verdade, tem um poder pequeno de absorção. 

E eu viajo muito. Horas sentada, viagens de nove horas de ônibus já fizeram parte do cotidiano. E não é só o problema da viagem, mas dos banheiros que você tem que frequentar quando viaja. É muito trabalhoso se equilibrar para trocar um absorvente. E se limpar decentemente. E a gente se suja. A menos que você tenha um fluxo  pouco intenso, poucas coisas incomodam mais do que a lambança que você faz para se limpar quando está menstruada. É isso mesmo. Se você só usar papel higiênico, vai levar sangue até pro rego. E isso não é engraçado. É muito chato. 

Questão do cheiro. As pessoas tem nojo do sangue da menstruação porque ele é fedido. E a verdade é que um absorvente é uma coisa bem nojenta mesmo. Como eu disse, ele não absorve de fato e você, dependendo do fluxo, fica com aquele sangue em contato com a sua pele e, novamente, com sangue até no rego. Quando você vai ao banheiro, não é nada agradável. 

O resumo da história: usar absorvente é uma merda e me ofereceram uma opção que parecia mais prática, mais higiênica e mais segura. Umas três ou quatro amigas minhas usavam e falavam que era muito fácil. Com algumas delas eu sou sincera o bastante para ter contado minha frustração por ter tido medo de usar. Meu sentimento de inadequação em relação ao meu corpo. E uma delas me disse uma coisa que me impressionou muito. Ela me contou que minha buceta não era um buraco negro. E que eu não corria o risco de perder o coletor lá dentro. Como se não bastasse, ela fez um vídeo me explicando a dobra que tinha dado certo pra ela. Fica o conselho pra vida, gente: tenham uma Bianca. Faz muita diferença.

Então, munida das palavras e ensinamentos da Bianca, na minha última menstruação, resolvi tentar. E...deu certo! E no primeiro dia eu já adorei a ideia. Como eu estava em casa trabalhando, eu podia volta e meia tirar o coletor e ver a quantidade sangue que tinha saído, desde o primeiro dia de menstruação até o último, para eu ter uma ideia de quantas horas eu posso ficar com ele. E digo: nem nos dias mais intensos de fluxo, o copinho ficou mais cheio do que a metade. Ou seja, eu podia tranquilamente colocar de manhã, e tirar à noite na hora do banho, e aí colocar no banho novamente e retirar pela manhã, tudo isso com o que eu considero muito mais higiene do que um absorvente.

E por que eu achei tão vantajoso? Vou enumerar as razões:
1. O sangue que fica no coletor não tem cheiro de nada além de...Sangue! Diferente do sangue do absorvente que tem aquele cheiro desagradável. Como no coletor o sangue não tem contado com o ar, ele não fede. Fica ali quentinho e quando você tira o coletor, não espirra sangue para todos os lados, fica no copinho, pronto para você jogar no vaso sanitário ou no ralo mesmo. 
2. Se você colocar seu coletor no banho, ao se enxugar você não vai precisar tomar todo o cuidado para não sair pingando do chuveiro e eventualmente sujar sua toalha. Aliás, nunca conversei sobre isso com ninguém: é uma droga se secar depois do banho quando você tá menstruada. Com o coletor, você se seca sem precisar de cuidados extras.
3. Você não sente ele durante o dia, o que não acontece com o absorvente normal. 
4. Você não fica úmida durante o dia, o que não acontece com o absorvente normal. 
5. Você não gasta meio rolo de papel de higiênico cada vez que vai ao banheiro fazer xixi. A cada xixi, usando o coletor, vai sair só xixi mesmo. 

E finalmente:

6. Sangue até no rego: NEVER MORE.

Algumas pessoas acham esquisito usar o coletor. As que eu conversei perguntaram sobre o contato com o sangue. Se você cuidar direitinho, na hora de tirar, o sangue não vai escapulir e você não precisa tocar nele. Mas como eu disse, é um sangue normal. Ele tem uma viscosidade maior, até porque ele é escamação do endométrio, mas o que pode ter de nojento no seu endométrio? 

Você vai ter um contato maior com o que cientificamente a gente chama de assoalho pélvico (e popularmente de a parte interna da buceta). Talvez esse seja um problema maior. Talvez seja por isso que o coletor tenha ido parar nas pautas feministas. Talvez tenha a ver com o fato de que as mulheres ainda têm uma limitação em relação ao próprio corpo a ponto de terem resistência a investigarem seus buraquinhos. 

Além do quê, o nojo da menstruação e a repulsa em relação a ela também fazem parte da pauta feminista, pois estão relacionados à uma demonização da sexualidade feminina. Coisas como: não poder fazer um bolo menstruada, porque não vai crescer, ou uma mulher menstruada não poder sentar na cama de uma mulher grávida, porque esta pode perder o neném, e por aí vão as crendices que resultam dessa demonização. E vejam, eu com 32 anos tinha medo de colocar o meu lá dentro. Precisou uma outra mulher me contar que eu não corria esse risco. Então, cá estou contando para quem quiser ler esse texto.

Minha conclusão sobre o uso do coletor depois dessa experiência maravilhosa de higiene menstrual é: eu queria dar um abraço em quem inventou, pois é um objeto flexível, de fácil limpeza e reaproveitável por até dez anos.

Por isso que eu digo: olha o que é o estudo, né, gente?

Edição: Eis o vídeo maravilhoso



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carta para os estudantes

Queridos estudantes, 

hoje, passando pelo corredor da Universidade, li uma frase que dizia mais ou menos assim: Por que eu me sinto frustrado quando não atinjo o resultado desejado? Era um de uma série de cartazes, produzidos para lembrar a nós, professores, o quanto a formação que produzimos e oferecemos é opressiva e exigente. Partindo do princípio de ser uma das receptoras da frase enunciada, resolvi respondê-la ali mesmo, no próprio cartaz. Com um caneta de outra cor, para indicar a minha posição de enunciação, desenhei um "S" bem grande e acrescentei uma "/" que lhe atravessava de fora a fora. Eis a minha resposta: se nos sentimos frustrados ao não atingir o resultado desejado é porque somos barrados. E não há nada que possamos fazer, do lado de cá, para mudar essa situação. Não importa quantas necessidades se delineiem do lado de lá. 

Notem: eu fiz uma separação aqui: o lado de cá e o lado de lá. E o fiz propositalmente com um objetivo claro que é contar o que eu senti com a intervenção que vocês fizeram. 

Eu voltava do meu almoço, com poucos minutos para pegar um projetor e ir para uma aula de reposição. Uma das muitas que eu, e todos os outros, demos nas últimas semanas, aulas que elevaram substancialmente nossa quantidade semanal de trabalho, pois, como eu disse antes, ao entrarmos em uma sala de aula, o que oferecemos é um produto e ele é resultado de nosso trabalho. Ele nunca começa ali, naquela hora e minuto específicos. E também não termina ali. 

Ele é produzido antes de chegar à aula e prossegue sendo tecido, cuidadosamente nas nossas mesas domésticas de trabalho. E vocês sabem disso. E como sabem? Por que vocês vêm aqui em casa, me abordam no supermercado, ou no restaurante quando eu estou com meu namorado, ou no semáforo quando eu estou levando meu pai ao médico. E aí vocês podem dizer: nunca fui à sua casa, professora. Ou abordei você no supermercado. Ou enquanto você levava seu pai ao médico. E eu digo: sim, vocês fez todas essas coisas e fez porque eu aceitei sua solicitação de amizade no Facebook. Fez porque eu dei meu número de telefone e respondi no Whatsapp. Percebam: eu abri a porta da minha casa e deixei vocês me acessarem no semáforo. Então, isso não é uma reclamação, mas uma constatação. E eu arco com as consequências disso, respondendo quanto e se acho que devo.

Mas eu me dispersei, como é do meu feitio. Eu voltava do meu almoço, e cheguei em um corredor tomado por vocês. E vocês estavam vestidos em camisas de força. E vocês estavam amordaçados. E vocês carregavam placas em que falavam sobre sofrimento psíquico. Vocês eram vários, e fizeram duas fileiras, uma de cada lado do corredor. O corredor que eu uso para chegar ao meu local de trabalho. Eu poderia recuar e dar a volta. Não passar por vocês. Mas se eu fizesse isso, estaria de alguma forma dizendo que sinto vergonha de ser professora. Que sinto vergonha em fazer uma avaliação que exige dedicação e pensamento. Que sinto vergonha em fazer chamada exigindo assiduidade. Que sinto vergonha em deixar claro que a aula tem hora para começar e para terminar. E eu não sinto. Que disciplinadora, vocês podem dizer. E eu respondo: sim, sobretudo quando meu trabalho envolve dinheiro público.

A visão da intervenção de vocês foi a visão de um corredor polonês. Que é uma técnica de tortura. Eu poderia parar no ponto que sucedeu a palavra "tortura", mas vou prosseguir, porque hoje eu não vou dourar a pílula. Vocês não estavam munidos de bastões, nem lanças, nem cintos. Vocês sequer falaram. Mas vocês fizeram uso de linguagem. Através de suas placas descrevendo sintomas de sofrimento. De seus jalecos representando camisas de força. Da câmera de celular ligada enquanto passávamos. Eu passei por um corredor polonês, em que os agressores usaram a arma mais potente e perigosa de todas: a linguagem.

E não só eu. E por isso, através desse texto, eu abraço cada colega meu que tenha atravessado esse corredor e sentido isso. Cada colega meu que ouviu a carta de vocês e não conseguiu esboçar reação. Eu não ouvi a carta que vocês leram na reunião que sempre está aberta a vocês. Eu fui, como disse, fazer a minha reposição. Se lá eu estivesse, naquele momento, vocês teriam me ouvido, porque a palavra é feita para ser usada em várias vias. A unilateralidade não cabe a ela.

Vou contar uma história para vocês: eu era recém formada e tinha conseguido meu primeiro emprego como professora seis meses depois que saí da faculdade. Um dia, faltando uma meia hora para eu ir trabalhar, eu tive uma briga feia com o cara que eu namorava naquela época. E nós terminamos o namoro e eu fiquei muito abalada. Mas eu precisava ir trabalhar. Para mim, não havia possibilidade de eu não ir porque tinha terminado um namoro. Lembro até hoje da cena: entrei em sala de aula, cumprimentei os alunos, abri minha bolsa, peguei o material preparado, peguei um giz, virei para o quadro e comecei a escrever os pontos que trabalharia naquele dia. Enquanto eu escrevia, a briga tomava conta dos meus pensamentos. Eu comecei a sentir um nó na garganta e uma lágrima silenciosa caiu. Eu terminei de escrever e saí lavar as mãos, como sempre fazia. Voltei e dei minha aula. Ao final, uma aluna perguntou se eu estava triste. Eu sorri e disse que sim. Ela respondeu que esperava que o quer que tivesse acontecido se resolvesse logo, eu agradeci, guardei minhas coisas e saí. 

Isso aconteceu outras vezes. Por esse e outros motivos. Vejam, eu não estou banalizando o sofrimento, só falando sobre o mundo real. Há consequências em faltar ao trabalho, tanto no que diz respeito à qualidade dele, quanto no que diz respeito aos efeitos de ordem prática. Ir trabalhar não foi um ato de heroísmo, mas de responsabilidade. Assim como é um ato de responsabilidade procurar afastar-se das atividades quando elas se tornam impossíveis de serem cumpridas.

Segunda história: eu dava aula em uma turma e uma aluna veio falar comigo. Explicou que semanalmente ela perderia a primeira aula porque ela não conseguiria chegar a tempo, porque a pessoa que cuidava do filho dela só chegava mais tarde. Eu respondi a ela que entendia a situação, no entanto, eu não poderia ignorar que ela faltaria, no decorrer do semestre, uma quantidade de aulas superior aos 25% permitidos. Ela ficou brava e disse que o motivo dela deveria justificar e eu disse: Fulana, eu tenho certeza que se formos perguntar a cada um dos seus colegas se eles teriam alguma razão para não conseguir chegar aqui para a primeira ou mesmo para todas as aulas, eles diriam que sim. Eu inclusive também teria as minhas, ainda assim, estou aqui. Ela assumiu sua condição e desistiu da disciplina. Voltou no semestre seguinte.

Tenho certeza que ao ler essas histórias, alguns podem dizer que eu sou rígida. E eu diria que sou pouco rígida. Aliás, quem já teve aula comigo, faça o favor de se pronunciar e me defender aqui. Se tem uma característica que não me define como professora é a rigidez. Mas tem uma palavra que alguns podem achar que é sinônimo da primeira, e esta sim, eu uso para me definir: rigor. Eu sou rigorosa, sobretudo eticamente. Ser rigorosa não faz de mim brava, ou séria, ou inflexível. Ser rigorosa eticamente faz apenas com que você possa ter a certeza que, sempre que eu notar que você me pede pesos e medidas variados, eu vou deixar claro que é isso que você está fazendo.

E é esse o meu objetivo com essa carta. Dizer a vocês que enquanto vocês não se reconhecerem na condição de sujeitos barrados, vocês sempre se sentirão injustiçados com as condições que a vida assume não apenas na universidade, mas do lado de fora dessa bolha que a gente erra ao construir para vocês. Isso que eu estou fazendo, ao contrário do que vocês podem alegar lançando mão dos conceitos que vocês aprendem em sala de aula, não é naturalizar o sofrimento: ele existe. Assim como existem as condições que os produzem. No entanto, esse sofrimento deve ser dito em primeira pessoa. E não projetada à terceira pessoa que está passando pelo corredor para buscar um dos seus instrumentos de trabalho. 

As condições que produzem esse sofrimento, parte delas, também as sofremos nós. Estamos submetidos, mas não como vocês. Porque vocês podem escolher estudar menos ou mais para uma prova, participar ou não de um projeto, fazer ou não um trabalho de conclusão de curso ou uma iniciação científica, faltar a 25% das aulas, dormir durante elas ou usar o computador para fazer qualquer coisa que não seja aproveitar aquele espaço de formação pago com dinheiro público. Isso significa que o mínimo de controle e comprometimento exigido através de trabalhos, provas, relatórios e prazos é a mínima garantia em relação à responsabilidade que nossa profissão exige quando formamos profissionais que deverão saber como acolher o sofrimento psíquico do outro sem vitimizá-lo. 

O fato de eu admitir que a vida ser feita de escolhas e renúncias não significa naturalizar a opressão do cotidiano e ignorá-la, como fazem os que não avaliam ou que não registram frequência assumindo que vocês são responsáveis pela formação de vocês. Não. Eu também sou responsável. E eu assumi essa responsabilidade imbuída de um desejo em relação a ela que quem já teve aula comigo reconhece em cada aula que eu dou. E que quem faz parte da minha vida não consegue deixar de notar sempre que eu falo sobre vocês e sobre as coisas que a gente discute em sala de aula. Eu sou tão professora, gente...Tão professora que me sinto tentada a responder uma frase em um cartaz que vocês escreveram. Tão professora que estou aqui pegando vocês pela mão e dizendo: vocês erraram. Erraram quanto à forma e quanto ao método.  

Por isso finalizo essa carta dizendo: cresçam. E crescer significa entender que a frustração que a gente sente quando não consegue realizar o esperado não pode nunca ser dirigida ao outro. porque a frustração é resultado direto de uma condição da qual o outro não pode livrar vocês. Essa condição é a condição de castrados. Mas é claro, desde que estejamos sendo éticos em relação ao nosso desejo de nos tornarmos profissionais. E desejo, bonitos e bonitas, sempre vai custar os olhos da cara.

Com carinho sincero (já que de mim vocês nunca devem esperar menos do que sinceridade),

Angela

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

2016, me ajuda a te ajudar.

Eu resumiria 2016 com um grande suspiro. Aquele que a gente tem que tirar lá do diafragma para ver se experimenta algum alívio àquele aperto no peito. Angústia é outro nome que esse aperto tem. O meu diafragma fez hora extra esse ano.

Eu resumiria 2016 como o ano do textão. É preciso de muito simbólico para dar conta de destituição imaginária que a gente viveu em um ano em que descobrimos a facilidade com que as  nossas instituições podem ser destruídas. Não existe nada que garanta o estado das coisas, isso pode ser muito bom para alguns assuntos. E muito ruim para outros, como estamos vivendo e viveremos na pele pelos próximos anos.   

Eu resumiria 2016 como o ano das oposições marcadas com dentes e garras à mostra. Ou você é uma coisa ou outra. Não foi um ano para ponderações, entendidas como sinal de fraqueza, de neutralidade. Esse foi o ano em que assassinamos simbolicamente o outro. É porque quando só cabe um tipo de discurso, os outros silenciam. E se silencia quem enuncia a palavra, mata-se o sujeito. Toda vez que eu calei alguém, permiti que coubesse apenas um posicionamento. Desse jeito, vamos longe...

Eu resumiria 2016 como o ano em que eu aprendi que o real do corpo é uma merda. Que não fumar, não beber, comer direito, fazer exercício físico, levar uma vida equilibrada não te garantem nada. Toda vez que eu ouço a pergunta "como está o seu pai?", eu sei que a resposta é "ele está melhor". Melhor em comparação ao pior em que ele já esteve. Até aqui as emergências do real do corpo tinham sido muito pequenas na minha vida. Esse ano, as senti como um trator que passou por cima da gente e, como nos desenhos animados, ficamos achatados no chão. Ainda estou me recuperando desse achatamento. Posso dizer que continuo andando meio plana por aí e  não fui capaz de sair de mim e dos meus para olhar mais ao redor. O movimento de rotação imperou por aqui. Peço desculpas por isso.

Eu resumiria 2016 como o ano em que o cheiro de fim de ano não veio. É que eu sempre sentia um cheiro diferente e muito gostoso quando chegava essa época do ano. Não sei descrever, não é nada no ambiente. É alguma coisa em mim. Desde que tenho lembrança desse cheiro (acho que eu comecei a percebê-lo quando eu tinha uns 4 anos), essa foi a primeira vez que ele não apareceu. O ano acabou sem aviso, com os dois pés no peito. Deve ser por causa do achatamento que descrevi antes. 

Mas eu pedi para que 2016 me ajudasse a ajudá-lo. E ele fez isso, pelo menos do ponto de vista pessoal (que é o que eu sou capaz de considerar, já que estou em movimento de rotação).

Ele me deu amigos que eu quero sempre comigo; viagens que me abraçaram por dentro; me fez ver que lá em casa as pessoas conseguem se ajudar quando a situação aperta; que eu sou reconhecida no que eu faço. E ele me deu o começo do melhor plano: aquele que vai tornar a distância que eu venho percorrendo em milhas se reduzir a distância de um abraço. E eu sempre lembrarei dele por isso.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Porque eu não discuto a questão do aborto

Porque as bases utilizadas para essa argumentação são extremamente contraditórias. Não faz o menor sentido eu falar em liberdade em relação ao corpo feminino se a base da qual o interlocutor parte tem como um de seus pilares fundamentais que essa liberdade não existe.

Isso não significa que eu não fale sobre aborto. Veja, a palavra que eu usei foi: discutir. Discutir no sentido raivoso da palavra, no sentido "eu falo, mas enquanto você responde, eu fecho meus ouvidos e cantarolo lálálálá". Assim como você fechará os seus enquanto eu estiver falando. É que nesse tipo de relaçao não existe abertura e, compreendendo que não existe abertura, eu acabo atacando o outro.

Para os que são a favor da descriminalização do aborto: vocês não acham ofensivo dizer que as pessoas pró-vida cagam e andam para as crianças abandonadas? Eu fico pensando que tipo de abertura vocês inauguram quando a base de seus argumentos é essa. Aliás, esse argumento é problemático pelas mesmas razões que o argumento de que pais gays adotam filhos abandonados de héteros é doído: é bem consolatório. 

Para os que são contra a descriminalização do aborto: vocês não acham ofensivo dizer que as pessoas que são a favor da descriminalização do aborto cagam e andam para vidas inocentes; ou ainda que demonizar a sexualidade feminina também é uma forma de fechar o diálogo? E que partir do princípio de que suas crenças devem ser gerais é ilusório?

O que é um debate?

Pessoas reunidas em uma mesa apresentando argumentos iguais, com os quais concordam e se parabenizando por isso no final?

Não.

Debater o aborto é estar aberto a ouvir. Se você pensa que ouvir não é preciso, então, o que você quer é que seu ponto de vista seja validado e pronto. E o nome disso é imposição. E veja, essa imposição está marcada nas falas em ambos os lados da discussão, mesmo que um deles diga que ninguém será obrigado a abortar. Ao dizer isso, ignoramos que as questões aqui delineadas incidem sobre dois significantes: poder e liberdade. E essas duas palavrinhas transitam com uma facilidade muito grande nos reinos do bem e do mal. O que é bem e mal e nessa história vai sempre depender de qual lado se fala. 

Fala-se que se houver um plebiscito no Brasil, a descriminalização do aborto sofreria um verdadeiro 7x1. Se isso for verdade (e eu acredito que é), o que fazer? Pedir perdão ao bem maior por essa entidade denominada coletividade dizendo que ela não sabe o que faz? E se ela não sabe, eu posso ensinar ou dominar?

Vocês percebem para onde caminhamos com facilidade nessa lógica argumentativa? Bem, eu não vou dizer aqui para onde é porque eu espero que meu texto já tenha sido claro em ligar lé com cré.

E por fim, algo que venho dizendo há algum tempo: nunca consegui provocar nenhuma reflexão e eventual mudança subjetiva em relação aos temas sobre os quais me engajo chamando meu interlocutor de burro, ignorante, carola ou qualquer uma dessas coisas. Sigo me recusando a fazer isso quando o tema é a descriminalização do aborto (sobre o qual sou a favor, caso os incautos estejam duvidando, já que talvez tenham dificuldade em situar o lugar que eu ocupo e a posição que eu afirmo, já que eu procuro construi-la longe dos extremos).

Vamos debater o aborto. Mas vamos chamar gente que seja contra e gente que seja a favor. Senão, não é debate. É punheta intelectual/espiritual.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Julguem a Rory um pouco menos

Só um pouco menos que já tá bom (esse post terá uma quantidade grande de spoilers).

Passei os últimos meses lendo muita coisa sobre o lançamento dos quatro episódios produzidos pela Netflix para Gilmore Girls. Acredito que como muitos que assistiram à série até o término dela (há dez anos), experimentei uma ansiedade que misturava sentimentos bons e ruins, afinal, os filmes de Sex and the City estão aí para provar que é possível acabar com suas boas recordações.

E Gilmore Girls era muito amor, não era? Não é toda menina de 16 anos que tem uma mãe de 32 que sabe ser mãe e amiga ao mesmo tempo. A minha me lembrava (e ainda lembra) muito mais a Emily do que a Lorelai. E eu tive amigas que tinham mães que pareciam muito com a Sra. Kim. Mas enfim, eu estou escrevendo esse texto com um objetivo: pedir para que vocês julguem menos a Rory.

Desde antes da estreia, acompanhei vários textos falando sobre ela e sobre as escolhas que ela fez. Um deles, o que mais me chamou a atenção e que nem vou linkar aqui, falava sobre como todos os namorados da Rory foram uns merdas e o quanto eles eram abusivos e escrotos. Olha, eu sei que você é muito desconstruído, mas que tal voltar um pouco no tempo? Não precisa ser lá para os 16 anos, volta para os seus 21, especialmente se você, como eu, já passou dos 30 e tem algumas histórias para contar. Eu poderia escrever sobre como até mesmo o Logan amadureceu nesses dez anos, mas ele não é meu assunto. É a Rory.

Esse texto foi motivado por duas coisas: li uma postagem aleatória no Facebook que dizia que Rory não tinha melhorado como pessoa dez anos depois. Depois recebi uma mensagem de uma amiga minha dizendo que eu tava ainda mais parecida com a Rory do que naquela época. Eu não entendia porque as pessoas achavam que eu parecia com ela naquela época e continuo curiosa e aguardando a resposta da minha amiga que vai ter que justificar em pelo menos três laudas essa afirmação. As duas situações aconteceram antes de eu começar a assistir aos quatro episódios. Aliás, fica a dica: mesmo essa opinião de que a Rory não teria melhorado como pessoa é uma chatice. Não tem mesmo como você não fazer nenhum comentário na timeline? Nenhunzinho? Eu consigo, você consegue. 

Enfim. Fui assistir. Encontrei uma Rory com 32 anos (minha idade e idade da Lorelai quando começamos a assistir a série). Achei Inverno ruim porque parecia que elas estavam aquecendo. Parecia ensaio e os diálogos meio artificiais. Mas acho que toda a primeira cena tem um subtexto. O encontro ali não era só entre as duas personagens, mas entre as duas atrizes, que demonstram naquele diálogo no coreto o quanto aquele tempo as deixou enferrujadas. Aliás, se você assistir de novo à primeira temporada, vai notar que esse tom meio travado existia ali também. A Rory com 32 anos está viajando. Ela oscila entre Londres e EUA e logo a gente descobre que não é porque ela está bem sucedida, ao contrário do que seus três celulares tentam afirmar. 

Ela está oscilando entre as duas cidades porque não tem um lugar que seja seu. Entendemos que ela escreveu uma matéria que teve uma grande repercussão, mas que as outras coisas que ela andou fazendo foram apenas isso: outras coisas. O que a gente sabe sobre ela é que ela está tentando: tentando escrever um livro sobre uma criatura excêntrica e tentando trabalhar em um veículo importante. Enquanto isso, ela deixa passar outras oportunidades, como trabalhar em um site que funciona como funcionam os negócios moderninhos dos nossos tempos: gente jovem e descolada, trabalhando em ambientes coloridos que pagam muito mal. 

O que mais descobrimos? Que ela continua tendo um contato próximo com a mãe, com a avó, com a Lane, com a Paris, com o Logan. No decorrer dos quatro episódios ela tem encontros com Dean, Jess e Cristopher, Com todos eles o tom é de extrema consideração, respeito e afeto. São pessoas que estão na vida dela há muito tempo, e que permanecem seja em um lugar de nostalgia, como Jess e Dean, seja em seu lugar cativo, como os outros. Sabe, é muito difícil manter as pessoas nesses lugares (cativos e de nostalgia) com o passar do tempo. 

Mas Rory está perdida com 32 anos. E parte disso pode ser entendido por toda a trajetória da Lorelai que fugiu de uma bolha de proteção que ela vivia com Richard e Emily e quis escapar. Ela fez isso com uma filha, que era mais do que isso, como o Cristopher foi muito perspicaz em notar. Aliás, caso não fossem mais do que mãe a filha, o seriado não teria razão para acontecer e menos ainda o livro que se torna a tábua de salvação da Rory. É claro que como a problematização está entranhada em nossas veias, a gente pode facilmente dizer que o Cristopher foi mais um cara que seguiu a vida, foi um pai ausente em termos afetivos e financeiros durante muito tempo. Quando bancou a faculdade da Rory foi com dinheiro de uma herança, ou seja, dinheiro que o colocava no legítimo lugar de herdeiro do qual tanto ele quanto a Lorelai tentaram escapar. É por isso que, diferente de nós, que julgávamos Cristopher, a Lorelai achava que ele precisava encontrar o caminho. 

Só que a Lorelai escapou de uma bolha e criou outra para si e Rory. Ela era inteligente, competente e poderia ter feito grandes coisas. Mas não fez. Não fazendo, projetou esses desejos em quem? Emily e Lorelai têm muitas coisas em comum. E é muito difícil para ela admitir isso, talvez por isso a relação das duas sempre vai ser imersa por ressentimentos. Para Emily, Lorelai é tão intransponível porque nunca percebeu que, na tentativa de enquadrá-la na posição social, havia amor. O amor que ela podia e sabia dar. Lorelai fez com a Rory algo muito parecido, só que com outras cores e tons.

Mas a Rory quis escapar do mesmo jeito. Ela foi superprotegida em uma cidade em que era um prodígio. Ela era amada e considerada por todos os adultos que foram importantes em seu crescimento porque ajudaram uma mãe adolescente. Eram mais do que amigos, eram espécies de pais e tios. Ela carregava uma marca em Stars Hollow: ela era especial porque ela era responsável, inteligente, amorosa, amiga e ajudava os outros. Você já foi considerado especial na infância e quando saiu da bolha descobriu que não era? A Rory sim.

Quando ela começa a sair da bolha, que é quando ela vai para Chilton, ela enfrenta dificuldades, mas ainda assim, fica amiga de alguém que lhe faz oposição, só disso já faz dela uma pessoa melhor do que muita gente que só consegue se relacionar com quem se identifica. É em Chilton que a gente descobre que ela não é uma banana. Que ela enfrenta as situações e que ela não se importa em não ser amada por aquelas pessoas. Ali ela ainda tem o reconhecimento dos adultos: ela é ainda brilhante.

Na universidade isso muda de figura, e isso tem a ver com o fato de que o relacionamento dela com o Logan não é aceito pela família dele. A Rory realmente não levava jeito para ser jornalista ou não levava jeito para ser a esposa do Logan? Para ele, que conhecia a própria família, fica muito claro que era a segunda opção. E o encontro no restaurante com o pai dele deixa muito claro: a questão não era com a Rory jornalista, mas com a Rory nora. E o Logan, que diferente de Cristopher aceitou isso bem cedo, tenta uma via conciliatória: gosta dela, e isso é óbvio, mas não quer perder o seu lugar no império. O pai da Rory levou muito mais tempo que o Logan para assumir isso, mas no final, tava lá.

Bom, aí você pode dizer: como assim você afirma que ele gostava dela? Se ele gostasse ele não estaria com a francesa (de quem a gente só vê as pernas e ouve a voz). Olha, eu gostaria de viver em um mundo em que as coisas são simples assim e que a gente toma decisões apenas baseando-se na racionalidade e na ética do bem. Mas como eu não vivo, consigo dizer que é perfeitamente possível ele gostar muito da Rory e não ficar com ela. Ele gostar muito da francesa e desrespeitá-la. Eu não achava isso quando era mais nova. Eu julguei Rory quando ela transou com o casado Dean. Mas hoje eu tenho 32 anos e vivi. E sei que não é preto no branco. E que somos sujeitos divididos. Não fôssemos as coisas seriam muito simples e práticas.

E é justamente por causa dessa divisão subjetiva que eu concordo demais com esse post (que tem muitos spoilers). A frase final era óbvia e eu já sabia que ela estava vindo desde o último encontro entre o Logan e Rory e, especialmente, entre Rory e Cristopher. Ela foi ver o pai com um objetivo de tentar entender sua história. Porque é claro que ela não é obtusa a ponto de não perceber que o que acontecia com ela, tinha traços de semelhança com o que acontecia com a mãe. E ela foi lá perguntar para um dos coadjuvantes: ela queria saber. E ela fez isso depois de escrever um livro sobre as duas, ou seja, sob o efeito que a escrita produz em quem conta uma história: recordar, repetir e elaborar. A repetição é algo muito sério e importante na nossa vida, gente. Não a subestimem.

Eu não sei quem é o grande amor da vida da Rory. Mas acho que o que Gilmore Girls me ensinou é que as coisas não são apenas sobre os caras que a gente ama. Aliás, que é possível amar um cara e ainda assim, seguir a vida sem ele porque sim.

Vocês já assistiram Boyhood? Tem uma cena que o menino, quase adulto, tá conversando com um amigo e dizendo que ele achava que quando crescesse a confusão ia passar. Mas que ele olha para a mãe dele e vê ela tão confusa quanto ele. E é isso. Quando eu tinha 18 e via Lorelai com 32, achava ela muito foda. Revendo os episódios anteriores, eu a achei imatura em muitos momentos. Vendo Rory, em Um ano para recordar, com 32, sem emprego, sem saber o que fazer e voltando para casa e para um lugar em que fosse reconhecida (por mais que ela deixe claro o quanto não estava de volta) me faz declinar de qualquer possibilidade de julgá-la. 

A última frase faz a gente pensar nos desdobramentos dessa vida: como Lorelai, Rory vai seguir a via da repetição sendo uma pessoa respeitada em Stars Hollow e criando seu bebê longe do pai. Ou não? Quem somos nós para dizer o que significa a elaboração na vida de uma outra pessoa ou quanto ela é um péssimo ser humano?

sábado, 27 de agosto de 2016

Guardadores de palavras

As palavras são tão importantes que precisam ser guardadas. E eu sou uma guardadora de palavras. 

Para mim, guardar remete a dar um lugar e a cuidar. E um guardador de palavras faz as duas coisas. 

Dar um lugar é se posicionar de tal forma que nada pode ser jogado fora. Tudo é importante. Guardar palavras não é fácil. É diferente de organizar o guarda-roupa em que você deve encontrar um lugar certo para cada coisa. Eu diria que essa prática é contrária a qualquer sistema de organização, porque não existe uma lógica em relação a elas do tipo: "ah, faz anos que eu não uso mais essa palavra, então, eu vou jogá-la fora ou dá-la para outra pessoa". 

Não, não. Cada palavra será sempre insubstituível e jogar uma fora faz um buraco das mais diversas dimensões. Por isso o guardador tem que também ter dotes de decorador, ter certo talento criativo. Eu acho que é impossível guardar palavras se o guardador se contenta com o feijão com arroz da vida.  

Quando você é um guardador de palavras, descobre que muitas e muitas vezes, não há nada a fazer com esses buracos. Podemos até tentar construir uma ponte que permita com que cheguemos ao outro lado, mas esses arranjos costumam ser bem frágeis e podem nos derrubar na travessia. 

E os buracos persistem. 

Algumas pessoas dizem: precisamos dar um jeito de tapar esse buraco, vamos enchê-lo com alguma coisa. Mas à medida que aprendi a guardar as palavras, entendi que esse terreno acidentado faz parte dos efeitos que elas causam em nós. Como guardadora, me percebi também cheia de buracos e claro que às vezes gasto muito tempo tentando preenchê-los, pois eu também me apoio nas minhas construções imaginárias.

Além de guardadora de palavras eu ajudo a formar outros guardadores. São dois trabalhos difíceis, pois guardadores e formadores precisam fugir da onipotência do saber. Sempre que eles pensam saber, eles se equivocam. Então guardadores e formadores, muitas vezes precisam dizer: eu não tenho a menor a ideia como te ajudar, mas estou aqui.

Como guardadora e como formadora me assusto mais com os que sabem demais e que usam a função como um nome bonito que legitimará frases que tem efeito de pontes capengas que ligam os dois lados de um abismo. As chances de você cair ao usar esse tipo de ponte são bem grandes. E às vezes eu fico ranzinza e penso que já que guardar palavras é difícil, alguns escolhem enfeitá-las.

Só que elas são duras e devem ser. Pois só sendo duras é que conseguem o efeito de inscrição que causam. Inscrição do sujeito que advém da força delas. Por esse precisam ser guardadas, jogá-las fora é desistir de quem somos.